Navegando Em Si Mesmo

A gente, hoje em dia, vive tentando encontrar um motivo para tudo, explicar pelo menos os acontecimentos que são importantes. É a maldição de Sócrates, que inventou a razão como panacéia universal. Mas obviamente tem coisas que não conseguimos explicar, que nos escapam por entre os tentáculos da racionalidade - o instrumento não é adequado, os critérios não se aplicam, a vida é maior que tudo que eu penso sobre a vida.

Foi assim que eu assisti "Cast Away" ("O náufrago", na tradução brasileira): espantado, sem instrumentos para entender todas as emoções que sentia. Confesso que sempre tive um certo preconceito contra o ator Tom Hanks - conforme a vida passa, mais me reconheço como um homem cheio de preconceitos e julgamentos irracionais, cada vez acho mais surpreendente que ainda possa falar alguma coisa inteligente.

Voltando ao filme, saí do cinema incomodado. O que nos propulsiona à vida? Qual é a mola que nos leva a trabalhar, ler um livro, lavar a louça ou nos sentirmos apaixonados?

No mundo civilizado e cosmopolita do personagem principal este tipo de pergunta simplesmente não se coloca. Vive-se pelo bem da empresa, a entidade que substituiu o clã e o Estado como fator de identidade dos grupos sociais e como fator de segurança na materialidade da própria existência do indivíduo. O sujeito contemporâneo cada vez mais depende deste tipo de entidade para manter a certeza da sua própria vida.

Vivendo submerso

As religiões já estiveram sozinhas nesta função de garantir aos indivíduos que eles existem, elas fazem isto de dois jeitos muito importantes: reconhecendo em cada indivíduo um membro de seu rebanho e mostrando para eles os modelos de comportamento. Notem o mecanismo da coisa: se todos acham que eu tenho um papel a desempenhar, se Deus quer que eu repita os personagens passados e repassados pelos meus pais e avós, então eu existo enquanto represento estes papéis.

Quando atuamos de acordo com os moldes tradicionais isto tem efeito sobre todo mundo ao nosso redor, inclusive sobre nós mesmos. É com base nestes modelos que nos tornamos inteligíveis, nossas ações são valorizadas e passamos a fazer parte do grupo. Toda a mitologia, tudo o que é verdade sobre a vida e a morte, todos os grandes feitos (bons e maus) preenchem minha vida de sentido e me impulsionam a fazer parte deste todo grandiloqüente.

Cada vez que eu ajo como Davi frente aos Golias que pululam em todo lugar; cada vez que eu enfrento minhas assombrações como Jesus no deserto; cada vez que eu tento ser sábio como Salomão; cada vez que eu, como Sansão, preciso buscar no meu íntimo as forças para suceder; cada vez que eu me espelho nos exemplos míticos para agir na minha vida eu atualizo estes mitos e dou significado à minha própria existência. A matéria e a fé se encontram e se convalidam nestes momentos sublimes - talvez a epifania fundamental.

Com o advento da modernidade, o Estado e a história também passaram a desempenhar esta função junto com os mitos religiosos. O espírito empreendedor de Sílvio Santos; os exemplos dos grandes intelectuais, como Raymundo Faoro ou (dum jeito bem diferente) Ruy Barbosa; o talento de homens das letras como Carlos Drumond de Andrade ou Machado de Assis; até mesmo a vida privada de esportistas, atores, políticos e músicos; enfim, as grandes figuras do passado e do presente nos dão modelos de comportamento e enchem de significado nossas ações, da mesma forma que Aquiles fazia com os gregos.

O Estado, visto como forma de organização do poder político, não pode ser, por si só, o fundamento do sentimento de pertencer ao grupo. Isto é feito por outra entidade tipicamente moderna, a nação, que ainda evoca características gerais como a bravura do bandeirante ou a tenacidade do sertanejo.

Mr. Noland (o nome é realmente um achado) pertence à última encarnação deste espírito - a empresa. Ela funciona mais ou menos do mesmo jeito que seus antecessores: nos dando a consciência de estarmos vivos, nos acolhendo em um grupo que nos reconhece como indivíduos capazes, nos dando o perfil dos papéis a serem desempenhados. Oferece reconhecimento externo e auto-realização num pacote único.

A solidão é seca

Mas aí vem a tempestade e Mr. Noland perde todos os meios que lhe asseguram o sentido da vida - metáfora muito usada para significar mudanças radicais, vindas de fora para dentro. Ao dar em uma ilha deserta (sem nem mesmo um animal de estimação) ele perde todo contato consigo mesmo, pois sempre se viu, como nós nos vemos, pelos olhos dos outros. O exílio fundamental é o exílio de si. Aí começa a longa jornada do personagem por se construir novamente, mas antes vamos nos aprofundar nesta condição que é determinante de todo o argumento do filme: a solidão absoluta.

Como eu já disse um pouco antes, nos conhecemos pelo referencial da sociedade, do ambiente cultural que nos circunda. Aí, imersos neste universo de sentidos, é que podemos nos julgar bons ou maus, feios ou bonitos, inteligentes, criativos, indolentes ou incapazes, amáveis ou brutos, ternos ou secos. Tudo isto são adjetivos, não existem em absoluto, quer dizer, não vemos a beleza ou a maldade por aí, andando de bicicleta ou comendo goiabada, existem na nossa cabeça.

Mas se é assim, então como aprendemos estes conceitos? Pois se são culturais, então são ensinados e aprendidos, são transmitidos para continuarem existindo. A resposta é que eles se expressam nas relações humanas. Sabemos que algo é feio por termos vivido situações em que objetos similares foram tratados como feios por pessoas cujas opiniões respeitamos. A feiúra existe quando aplicada por pessoas a objetos - ou a outras pessoas, mas a nenhum dos meus queridos leitores.

Mas os adjetivos são fundamentais para nós nos conhecermos. Tentem descrever a si mesmos sem utilizar um adjetivo qualquer... Não dá! Afinal, o que é que somos além desta mistura de adjetivos? Estou querendo dizer que para nos conhecermos a gente precisa, primeiro, aprender estes instrumentos culturais: as palavras. Os conceitos abstratos são fundamentais para avaliarmos, compreendermos e explicarmos a nós mesmos e as nossas sensações e sentimentos.

Então, a primeira coisa é que para nos conhecermos precisamos dar substância aos adjetivos que vamos precisar para nos descrever para nós mesmos. Mas só podemos dar substância para estes adjetivos se os aprendermos - nas relações com outras pessoas. Depois de aprendidos os termos, os instrumentos com os quais nos julgamos e nos conhecemos, aí podemos aplicá-los sozinhos? Em princípio sim, porém, é bem mais fácil se tivermos alguém para fazer a sintonia fina, para nos julgar ao mesmo tempo em que julgamos a nós mesmos.

Confrontado com a possibilidade de morrer, Mr. Noland se preocupa primeiro em garantir a própria subsistência, ainda esperançoso de um resgate. O tempo passa e as esperanças vão se indo - é forçoso adaptar-se, reinventar-se. Acontece que não é possível a gente se ver sem o olhar do outro. Mr. Wilson, a "personagem/bola de vôlei", tem para ele o mesmo efeito do Deus monoteísta para seus seguidores: permite a criação de sua individualidade. Deus está sempre perto e, onisciente, pode nos ajudar no julgamento sobre o que fazer. Ele faz o papel do outro, um outro ideal que está conosco para ajudar a avaliar as situações por critérios sólidos, permite que eu me veja como alguém capaz de decidir sozinho - sozinho com Deus ou sozinho com Mr. Wilson.

Durante os quatro anos de solidão, Mr. Noland encontra formas suas de dar significado à própria vida. Prova do quanto ele se debateu, buscando uma razão para viver, é o fato de ter pensado em suicídio - a resposta de quem não conseguiu uma resposta, de quem não pode dar sentido à própria existência. Mas a prova de que conseguiu construir um sentido, construir uma motivação interior para se manter, está em ter abandonado a via do suicídio - a resposta de quem sobreviveu a este debate consigo mesmo, de quem conseguiu produzir significado a partir deste debate.

Mr. Noland emerge deste mergulho em si mesmo como um sobrevivente. Ele conseguiu pescar, lá no seu íntimo, algo com o que alimentar sua fome de significado. Conhecendo a si mesmo ele pode dar um significado muito mais verdadeiro ao mundo ao seu redor. Sentindo profunda e intimamente a si mesmo é que é possível sentir o mundo. Sem esta capacidade de sentir não é possível descobrir o componente afetivo dos símbolos mais férteis.

Vejam: um objeto pelo qual não se sente nada não importa. Qualquer objeto pelo qual não se sente nada não é importante e, se não sinto nada pela minha vida ela não é importante para mim. Triste, não é? Mas qual seria a resposta?

Proponho que o único parâmetro que me permite saber dos meus sentimentos por qualquer coisa, inclusive a minha namorada ou a minha bicicleta, é saber sobre mim mesmo. Mas isto não significa que conhecer a mim mesmo me condena a amar apenas o igual. Conhecer a mim mesmo me dá segurança para conviver e amar o diferente, ao menos pelo tanto de experiências e situações novas que ele vai me propor. Cada coisa nova me alarga e aprofunda, me dá cores e vozes diferentes, enfim, o diferente enriquece a experiência que eu tenho de mim mesmo.

Acho que vou deixar o retorno de Mr. Noland à civilização para outra semana.

Já estou suficientemente surpreso.

© Prof. Luiz Marcello de Almeida Pereira - Professor de Teoria Geral do Estado e Direito Constitucional na Universidade São Marcos, advogado e mestrando em Filosofia do Direito na PUC/SP, é editor do Jornal Bem Legal.


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