A Inviabilidade da Guerra

Estamos escrevendo a história continuamente, seja através da realização, observação ou leitura dos fatos históricos. Todos os nossos atos precisam ser pensados e repensados, e nada mais apropriado que pensar a Guerra em meio ao turbilhão de acontecimentos e informações.

Estaremos iniciando a partir deste artigo uma série de artigos sobre a questão da ética da guerra e iniciaremos com uma resenha do texto de Umberto Eco, "Pensar a guerra" publicado em la Rivista dei Libri, I, abril de 1991, nos dias da Guerra do Golfo, e posteriormente publicado no livro "Cinco escritos morais" Editado pela Record em 1998.

Para Umberto Eco, o primeiro dever do intelectual é criticar os próprios companheiros de estrada. Pensar a guerra é um exercício da função intelectual.

Segundo Eco a inviabilidade da guerra dá-se por algumas condições.

1. As armas nucleares convenceram a todos de que um conflito atômico não teria vencedores, mas um único perdedor: o planeta.

2. A guerra não é mais entre duas frentes separadas. A guerra não pode ser mais frontal, em virtude da própria natureza do capitalismo multinacional. Faz parte da lógica do capitalismo maduro que escapa ao controle de cada Estado em separado. Está na lógica da indústria da notícia vender notícias, de preferência dramáticas.

3. Mesmo que a imprensa estiver amordaçada, as novas tecnologias da comunicação permitem fluxos incessantes de informações e não é possível uma guerra em que não se possa surpreender o adversário. Todas as guerras do passado baseavam-se no princípio de que os cidadãos, considerando-a justa, estivessem ansiosos para destruir o inimigo. Agora ao contrário, a informação não só faz vacilar a fé dos cidadãos, mas também faz com que se tornem vulneráveis diante da morte dos inimigos - não mais um evento distante e impreciso, mas uma evidência visual insustentável.

4. O poder não é mais monolítico e unidirecional: é difuso, parcelado, feito de uma contínua aglutinação e desaglutinação de consensos. Na guerra, alguns poderes econômicos entram em concorrência com outros, e a lógica do conflito entre eles supera a lógica das potências nacionais. Se a indústria dos consumos estatais (como os armamentos, por exemplo) precisa de tensão, a dos consumos individuais tem necessidade de felicidade. O conflito é decidido em termos econômicos.

5. A guerra não se assemelha mais com as guerra de outrora, a um sistema inteligente "serial", mas a um sistema inteligente "paralelo". Um sistema paralelo confia a cada célula de uma rede a decisão de organizar-se em uma configuração final, segundo uma distribuição de "pesos" que o operador não pode decidir ou prever com antecedência, porque a rede cria regras que não recebeu com antecedência, automodificando-se para encontrar a solução e desconhece a distinção entre regras e dados.

Umberto Eco conclui que é dever intelectual proclamar a impossibilidade da guerra.

"No entanto, mesmo quando escolhe espaços de silêncio tático, a reflexão sobre a guerra exige finalmente que este silêncio seja manifestado em voz alta. Com a consciência das contradições de uma proclamação do silêncio, do poder persuasivo de um ato de impotência, do fato de que o exercício da reflexão não exime de assumir responsabilidades individuais. Mas o primeiro dever é dizer que a guerra, hoje, anula qualquer iniciativa humana, e até mesmo seus próprios objetivos aparentes (e a vitória aparente de alguém) não podem impedir o jogo, agora autônomo, de pesos empilhados em sua própria rede. Porque um peso "o quanto é peso pende, e quanto pende depende... e mesmo descende, pois o próximo ponto supera em baixeza aquele que a cada vez atinge... O peso nunca pode ser persuadido:"(Michelstaedter)"

Conclusão: O que Humberto Eco não "intelectualiza" em seu texto, até porque seria contraditório, é a irracionalidade da guerra. Desde a origem da competição geradora de conflito, o homem tem procurado a guerra por questões irracionais, passionais e míticas. Não existe uma lógica para a guerra. Repensar a guerra é repensar a irracionalidade humana.

Referência Bibliográfica:

ECO, Umberto. Cinco Escritos Morais. [Tradução de Eliana Aguiar]. Rio de Janeiro: Record, p. 11-27, 1998.

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© Copyright 2001 - Prof. Vanderlei de Barros Rosas - Professor de Filosofia e Teologia. Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro; Bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil; Pós-graduado em Missiologia pelo Centro Evangélico de Missões; Pós-graduado em educação religiosa pelo Instituto Batista de Educação religiosa.


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