Novo Tempo, Nada de Novo

Novo Ano! Novo Século! Novo Milênio! O que podemos esperar desse novo tempo que se inicia? Saúde, educação, emprego, moradia? Bem, essas palavras simplesmente traduzem as necessidades básicas de qualquer cidadão no mundo. Não seria diferente para o povo brasileiro. O básico deixa de ser básico para ser artigo de luxo de alguns poucos brasileiros.

Pensam, alguns, que o povo brasileiro gosta de ser enganado, ludibriado. Podemos citar, como exemplo, a fantasiosa comemoração dos 500 anos de descobrimento do Brasil, onde foi dada a largada para mais uma maratona de corrupção. Os mais "bem-intencionados" utilizaram o tema para dar asas a imaginação. Realmente, foi uma estratégia de marketing. O assunto serviu de tema, por exemplo, para escolas de samba de várias regiões do país. Panfletos, outdoors e souvenires diversos foram utilizados para que se fizesse notar os 500 anos. Será que o medo de que ninguém lembrasse da data era tão grande assim? Ou será que toda essa folclórica e exuberante manifestação ufanista que o governo impingiu ao povo brasileiro não teria a finalidade de desviar o foco da discussão sobre a nossa desigualdade social, mazelas e atitudes de governantes que mancham nossa bandeira com a tinta da corrupção?

A realidade é bem diferente. Lamentavelmente, o dia-a-dia do povo brasileiro não é feito de fantasias coloridas e plumas de pavão. Temos a falta de saneamento básico e a degradação ecológica. Peixes morrendo, dengue, cólera, esquistossomose, tuberculose e epidemias diversas. E onde está o dinheiro do CPMF? É cediço que este dinheiro seria destinado à saúde. E por que tanta gente morrendo por falta de atendimento médico e hospitalar?

Junto ao descaso com a saúde da população, um reflexo da insensatez dos governantes é a resistência em aumentar o salário mínimo. Nos últimos 30 anos, as pesquisas sobre os índices de criminalidade no País apontam o crescimento desordenado das regiões periféricas, a proliferação das favelas, a ausência da polícia, o desemprego, o caos da Saúde que se vê nos hospitais sucateados, escolas deterioradas, falta de lazer e educação, como detonadores da violência urbana.

A ineficiência, tanto do sistema penitenciário, quanto policial, é apenas reflexo de uma causa maior, o desequilíbrio social provocado pela má distribuição de renda. Há ainda a banalização da violência, o desrespeito, a falta de ética e seriedade com que os temas sociais são tratados por determinados veículos de comunicação, fazendo com que a violência pareça um sintoma normal.

Neste Brasil de "meu Deus", não fosse a resistência da nossa gente, nossas belezas naturais e a fertilidade do nosso solo, não teríamos quase nada a comemorar, quanto mais os 500 anos de Brasil. 500 anos de quê?

Em novos tempos, novos dias, podemos lembrar o trecho de uma canção que, a algum tempo atrás, dizia mais ou menos assim: "No novo tempo, apesar dos castigos. Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos... No novo tempo, apesar dos perigos. Da força mais bruta, da noite que assusta, estamos na luta. Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver". 1 Portanto, meus caros leitores, estamos vivendo e sobrevivendo os novos velhos tempos, pois, apesar de decorrido algum tempo desse tempo, os tempos não mudaram em nada, absolutamente nada.

Continuemos, pois, a clamar por nossos direitos! Não seremos coniventes com a falsidade ideológica dos supostos ideais que nossos governantes dizem ser para o bem do povo brasileiro. Continuemos, pois, a reivindicar o que, por direito, é nosso! O povo não precisa de promessas! O povo precisa de respeito, amparo e orientação, para que tome consciência de todos os seus direitos e deveres, como cidadãos brasileiros que são.

"Bebida é água.
Comida é pasto.
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comida.
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida.
A gente quer saída para qualquer parte.
A gente não quer só comida
A gente quer bebida, diversão, balé.
A gente não quer só comida
A gente quer a vida como a vida quer".
2

1 Trecho da música Novo Tempo, de autoria de Ivan Lins e Victor Martins.

2 Trecho da música Comida, dos Titãs.

© Texto produzido por Rosana Madjarof


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