Espelhos Que Dão Medo

"It is a funny thing. No matter how low you sink, there is still a rigth and a wrong. And you always end up choosing, you go one way so you can live with yourself. You go the other and you'll still be walking around, but you're dead and you don't know it."Abre o filme.

Volto a escrever com a desculpa de comentar filmes, desta vez é Last man standing, com Bruce Willis no papel principal, roteiro de Akira Kurosawa e trilha sonora do deus Ry Cooder.

Bom, a história é de um sujeito (cujo único nome revelado é o obviamente falso John Smith) quando ele chega a uma cidade em guerra. Duas facções lutam pela rota de tráfico de álcool - é o tempo da Lei Seca, uma insanidade americana que não pegou, diferentemente da atual proibição. O bem e o mal não estão representados nestas facções, ambas más. O mal está ao redor de JS e também no seu próprio coração, porém há ainda um senso ético qualquer, a idéia de dever que ele tem para com a garota que se obstina por salvar.

Percebam, ela não será sua, ele não a quer e não faz qualquer gesto para a ter, porém com que coragem a defende, com que engenho prepara a sua salvação! Como diz o preâmbulo (morte lenta aos que conversam durante as primeiras cenas, e aos que chegam atrasados e nos estorvam, pois eles não entendem a proposta do filme e nos perturbam a concentração). Como se diz no prelúdio do filme, aqui se trata de um sentimento muito particular, que nos toca de vez em quando e tem profundas conseqüências no resto de nossas vidas: é o sentido profundo da honra, da própria dignidade.

Sim, todos nós temos um sentimento de certo e errado, por piores que formos, por mais abjetos que nos mostremos. Não importa muito se somos católicos fervorosos, com um rígido código de conduta, ou se somos bestas rebeldes fazendo o que nos dá na cabeça: há sempre momentos em que se faz uma opção baseada em modelos de comportamento que aceitamos como positivos ou negativos. Realizar o ato condenável nos deixa sem norte, faz com que nos decepcionemos conosco.

O grande mal é este, é fazer o que intimamente consideramos errado. Dá para matar bebês com requintes de crueldade, torturar cachorrinhos, dizimar populações indefesas e destruir jardins belíssimos, sim, todos estes gestos são humanos. Há seres humanos que fazem este tipo de coisa e dormem tranqüilos, pois acreditam estar fazendo o certo, por motivos religiosos, políticos ou sejam lá quais forem. O importante é que eles justificam suas ações através da comparação com um modelo em que acreditam. Mas em todo modelo de comportamento há proibições.

Não é minha intenção, nem a do filme, discutir o fundamento do certo e do errado. Estou dizendo que tem momentos em nossas vidas nos quais podemos livremente optar, mas também tem vezes em que só há uma opção ética. Fazemos o errado mas não conseguimos nos olhar no espelho depois; ligamos para nossos pais na semana seguinte e a conversa não flui; continuamos achando que estamos vivos, trabalhando, estudando e namorando, mas já morremos por dentro e não sabemos.

Que os amigos falem contra, que nossos pais nos recriminem, que a religião e os bons costumes digam que é errado, nestes momentos de decisão é imperativo fazer o certo, o que intimamente sabemos ser certo. Porque se não fizermos o certo não vamos poder nos olhar no espelho, porque vamos ter vergonha íntima e seremos pessoas menores por muito tempo.

Eu tenho um amigo que abandonou o ITA. Ele estava no segundo semestre de engenharia na faculdade de vestibular mais concorrido do Brasil (ele é do tempo do vestibular), mas não gostava. Abandonou o curso e é feliz hoje, conseguiu se firmar como um sujeito íntegro e confiante nas próprias forças. Tivesse ficado e talvez hoje fosse um farrapo.

John Smith perdeu alguns dentes e o dinheiro que entrou na cidade procurando, mas reafirmou o pacto consigo mesmo. Tomara que nós todos possamos continuar sendo assim, haverá muito menos mágoa, ressentimento e vergonha. Basta se olhar no espelho antes e pensar: como é que eu vou me barbear depois de optar pelo caminho mais fácil?

© Prof. Luiz Marcello de Almeida Pereira - Professor de Teoria Geral do Estado e Direito Constitucional na Universidade São Marcos, advogado e mestrando em Filosofia do Direito na PUC/SP, é editor do Jornal Bem Legal.


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