Mudanças I - Tempo

Em 1963 Bob Dylan dizia, poeticamente, duas coisas na mesma frase: que os tempos estavam mudando e que a mudança é da natureza dos tempos 1.

Desde então algumas coisas mudaram mais rápido, outras mais devagar, e ainda bem que cada vez menos gente acha que há algo imutável debaixo do sol. Mas hoje, não quero discutir SE as coisas mudam, parto daí para outra conversa: COMO as coisas mudam.

Tem mudanças que ocorrem sem ninguém agir sobre elas, são transformações naturais como as que acontecem com as estrelas, a órbita da Terra, nossos corpos e os de outros seres vivos, por exemplo. Outras mudanças são artificiais, feitas pelo ser humano, como as versões de um programa de computador, uma tatuagem feita no próprio corpo, a diminuição da camada de ozônio ou o aumento nas importações de petróleo pelo país.

Pelos exemplos, já dá para ver o quanto que o assunto se ramifica 2, mas para entender as decorrências proponho nos aprofundarmos um pouco em sua raiz. Apesar da distinção ser bastante simples, é comum fazer-se grande confusão entre uma categoria e a outra, principalmente porque em muitos casos há transformações decorrentes de causas naturais e humanas. Vou pegar três planos diferentes em que se passam as transformações que nos circundam, sem achar que só tem transformações destes três tipos, mas dando exemplos bem diversificados para termos uma idéia geral do tema principal, que são as transformações que ocorrem com ou sem influência humana. Hoje, falo dos planos individual e social, depois do ecológico, mais complicado.

Analiso, primeiro, um caso do plano individual: as transformações que acontecem no nosso corpo. Sim, é natural ganharmos vigor à medida que passamos da infância para a vida adulta, para depois irmos envelhecendo até morrer. A existência do ciclo é natural, mas ele pode ser artificialmente retardado ou acelerado, e isto depende em grande parte do nosso próprio comportamento. Perdemos vigor físico com a idade, mas podemos retardar o processo ou torná-lo menos dramático realizando exercícios regulamente, comendo as coisas certas, dormindo bem e obedecendo aos conselhos do médico em quem confiamos.Uma outra opção seria acelerar o processo comendo mal, fumando cigarro após cigarro ou usando o carro até para ir à padaria da esquina de casa, por preguiça.

Não posso esquecer que o cérebro é parte do corpo, que tudo que faz bem para um também ajuda o outro, mas que também há no mercado muitas formas de danificá-lo em pouco tempo. E tem a filosofia, que além de dar instrumentos para ele funcionar melhor ainda exercita o raciocínio.

É uma opção individual, para a maioria de nós - claro que tem fatores sociais envolvidos nesta opção, desde o exemplo dos pais até os valores do grupo ao qual desejamos pertencer, por isso eu digo que para algumas pessoas a opção não é livre. Para os que podem tomar esta decisão trata-se de realizar comportamentos que modificam, artificialmente, um processo natural. Ficar sentado em casa assistindo clipes de má música e comendo pipoca com bacon é o que mais combina com a reclamação de que "o tempo é cruel". O tempo passa naturalmente mas, ainda bem, podemos deliberar sobre o que fazer com ele.

O segundo grupo de casos são as transformações sociais. Aqui os ciclos, se é que eles existem, são menos marcados, temos tido mudanças desde o tempo das cavernas e é pouco provável que elas parem justo agora - mantendo o foco, não me preocupo se a sociedade se transforma, mas como.

Pode lhes parecer surpreendente, mas é comum ouvirmos dizerem que estas mudanças são dominadas por entes semimíticos e que a humanidade não tem influência sobre seu próprio destino. Claro, trata-se de um conjunto bastante complicado de fatores que levam a estas transformações, desde a organização interna da própria sociedade até suas relações externas, incluindo desastres ou maravilhas naturais. Mas só o fato de ser um conjunto assim difícil de entender significa que está acima da influência humana? A minha posição neste assunto é otimista: o ser humano rege suas próprias ações e formas de relacionamento.

As transformações sociais têm motores humanos, principalmente. Afora os raros casos naturais aos quais me referi, tudo o que leva uma sociedade a trasformar-se neste ou naquele sentido é artificial, é feito pelo homem. A frase dos conformistas neste caso é que "os tempos são cruéis" - que nos tempos atuais tudo é violento, feio, sujo, e que, portanto, devemos nos comportar assim.

Ao suicídio físico e mental da pipoca com Jon Bon Jovi se soma o suicídio moral do "levar vantagem em tudo". Como entender estes atos tão violentos das pessoas contra si mesmas? Elas não sabem que têm opção! Elas acham que tudo é natural, foi feito assim e é imutável. Não passa de um reflexo da confusão entre causas naturais e causas humanas, pois o sujeito que aceita a confusão acha que, se a causa é natural, então o seu comportamento não pode alterar o encadeamento dos fatos.

Esta sensação de impotência e apatia se alimenta indefinidamente de si mesma, já que vai construindo no sujeito a auto-imagem de um zero à esquerda. O raciocínio é mais ou menos assim: se ele não pode fazer nada para mudar o jeito natural das coisas serem, então ele nem tenta; como ele não tenta isto é "prova" que ele é um nada.

A confusão é mais profunda que parecia no início, não é? Filosofia também é aprofundar coisas aparentemente simples, não só entender as coisas que já se apresentam obscuras. Aliás é através do que é claro que se percebe o mais fugidio, e não o contrário.

O terceiro assunto é a questão ecológica. Aqui as coisas se complicam um pouquinho mais, pois o número de fatores naturais é bem grande. Vou deixar este grupo para a semana, para não cansar a todos com minha prolixidade. Até lá.

© Prof. Luis Marcello de Almeida Pereira - Advogado, Mestrando pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor de Direito Constitucional da Universidade São Marcos.

1 No verso "the times they are a-changin'", refrão da música homônima regravada há poucos anos em seu "Umplugged".

2 Por isto não vou falar de tudo de uma vez só, nas próximas semanas volto para cutucar o bicho de outras posições.


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