Dois Aspectos da Feminização do Trabalho

Após a Segunda Grande Guerra, a mulher trilhou, definitivamente, o caminho para o trabalho fora do lar, isto é, para o trabalho remunerado. Contingências históricas, industriais e tecnológicas motivaram essa mudança.

Nos dourados anos 50, o Brasil vivia um acentuado crescimento urbano e industrial - como ressaltei em outro trabalho 1 - nessa época, a indústria brasileira já chegava ao ponto de fabricar praticamente tudo: de derivados de petróleo a vidro, de alumínio a papel, de móveis a tecidos, de alimentos a produtos farmacológicos.

A marcha sem retorno da industrialização acabou por colocar nas prateleiras das lojas e gôndolas dos supermercados produtos que antes pertenciam à cultura doméstica. E mais: o trabalho doméstico tende a ser desvalorizado quando os petrechos e utensílios que antes eram produzidos no âmbito familiar, tornam-se bens de consumo, o que facilitaria o trabalho dentro de casa e o tornaria mais rápido de ser realizado. Obviamente, a diferença entre comprar o bem in natura e sua versão industrializada custa, e custa dinheiro. É em busca desse dinheiro para suprir a família de bens de consumo que a mulher sai para espaço público em busca de trabalho.

Certos setores de produção e de serviços absorveram bem essa mão-de-obra, vislumbrando um aumento da mais valia, através do pagamento de salários menores à mão-de-obra feminina. A esse fenômeno da grande absorção de mulheres por determinados ramos deu-se o nome de feminização do trabalho.

Assim, a expressão feminização do trabalho é cunhada, inicialmente, para determinar a absorção da mão-de-obra de mulheres por certos setores da economia com redução do nível salarial.

Atualmente, o estágio de desenvolvimento tecno-industrial gera desemprego recorde impulsionado pela substituição de mão-de-obra por máquinas forjadas pela tecnologia. Assim, o mercado de trabalho tornou-se saturado, não absorvendo completamente o contingente de homens e mulheres que estão dispostos a vender sua força de trabalho; deste modo, se a fria lógica do capital nos apresenta a sociedade pós-moderna como esta é de fato, sem qualquer solução objetiva para esta situação limítrofe a que a tecnologia nos trouxe, devemos buscar elementos subjetivos, imateriais que possibilitem a adoção de novas lógicas, novos modelos econômicos, de produção e administração do material humano.

Este elemento imaterial nos é dado por uma produção subjetiva que cada vez mais se faz presente como característica fundamental das organizações industriais pós-fordistas. No entender do cientista social italiano Antonio Negri, nestes modelos de organização são, necessariamente, encadeados e interdependentes a produção de riquezas da produção de conhecimentos, esta da produção de subjetividade e esta, por sua vez, da reprodução social de processos vitais ricos em relações intelectuais e valores afetivos 2.

Continua Antonio Negri:

"(...) o que me interessa frisar aqui é uma novidade qualitativa: não a "feminização" do "trabalho masculino", mas o "tornar-se mulher" do trabalho em geral; não o fato de que as mulheres estejam tomando o lugar dos homens nas velhas fábricas, mas que - na produção contemporânea e nas formas eminentes de sua organização - trabalhar conjuga-se antes no feminino do que no masculino. E que, portanto, os próprios homens, para produzir, têm de algum modo de se feminizar."3

Ainda no entender do cientista italiano, é necessário esse "tornar-se mulher" do trabalho pois os investimentos afetivos da reprodução da comunidade tornam-se fonte de riqueza da sociedade; porque a mercadoria-serviço nada vale se não for sustentada por capacidades relacionais; porque a gestão do intercâmbio vital e a educação dos cérebros tornam-se os desafios centrais de toda a sociedade produtiva 4.

Deste modo, a expressão feminização do trabalho ganha novo sentido, traduzindo a função social de reproduzir valores relacionais e afetivos, antes restritos ao âmbito familiar, para o ambiente do trabalho.

1 Léa Elisa Silingowschi Calil, História do Direito do Trabalho da Mulher, p. 45.

2 Jornal Folha de São Paulo, 14 de junho de 1.998 [Caderno: Mais!, p.5.3].

3 Idem, ibidem.

4 Idem, ibidem.

© Texto elaborado por Profª. Dra. Léa Elisa Silingowschi Calil - Advogada, Dra. em Filosofia do Direito e Professora de Direito do Trabalho no Centro Universitário FIEO - UniFIEO e membro da AIDTSS - Associação Iberoamericana de Direito do Trabalho e Seguridade Social. Autora do Livro "História do Direito do Trabalho da Mulher".


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