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Cinco horas, o aroma do chá, canela com laranja, invade a sala, repleta de móveis antigos e quinquilharias das viagens, ao redor do mundo, de Martha (a dona da casa): oitenta e seis anos, exímia jogadora de bridge. Ao sentir o aroma do chá, Martha convida suas amigas e companheiras de jogo, Filomena, 92 anos e Lourdes, 79 anos, a fazerem um intervalo. O chá é servido acompanhado de um tradicional bolo de fubá. Enquanto elas se deliciam com os quitutes, a campainha toca, é o carteiro. Martha recebe uma carta vinda da Inglaterra, o selo estampa o rosto da Rainha Elisabeth. Na carta, sua neta Adriana (22 anos) relata suas aventuras em Londres.

Chego quinta, às 11h.”. Este é o texto do e-mail que Adriana, envia para seu irmão Gabriel (18 anos). “Sussu, te pego” é a resposta de Gabriel.

Os e-mails estão mais para telegramas do que para cartas. Cartas são mais românticas, com certeza, mas mais trabalhosas. Papel de carta, envelope, selo, correio... que preguiça, ufa!!!

Caio Fernando de Abreu (o saudoso escritor), dizia alguma coisa como “cartas estão deixando de ser escritas, (...) coisas estão deixando de ser ditas”. Acho que ele tinha razão, mas não chega a ser preocupante.

Uma nova cultura pressupõe dois fatos: (1) uma outra forma de dizer as coisas, bem como (2) outras coisas sendo ditas. Usei “outra”, de caso pensado, porque não sei se esta outra forma e este outro conteúdo são realmente novos. Não sei, decididamente, estou em dúvida. O que percebo é que existem algumas características marcantes da “escritura virtual”.

A primeira delas é a síntese. A busca de ser exato, preciso naquilo que se diz. Isto nunca foi tão imprescindível, como nestes tempos. Pois todos nós estamos vivendo um momento no qual a idéia[1] de rapidez está sendo vivenciada via instantaniedade das informações. O que não é instantâneo parece-nos lerdo, antiquado, jurássico. Compare cartas e e-mails...

A busca da exatidão e da síntese pode fazer de nós seres monossílabos ou abrir uma senda para uma outra escritura sintética e universal. A exatidão e o cosmos não são inconciliáveis. Veja o que diz Ítalo Calvino, neste belo parágrafo, no qual descreve as suas duas “estradas do conhecimento”:

(...) uma que se move no espaço mental de uma racionalidade desincorporada, em que se podem traçar linhas que conjugam pontos, projeções, formas abstratas, vetores de forças; outra que se move num espaço repleto de objetos e busca criar um equivalente verbal daquele espaço enchendo a página com palavras, num esforço de adequação minuciosa do escrito com o não-escrito, da totalidade do dizível com o não-dizível.[2]

Esta é a busca da “escritura virtual”, busca que estamos metidos, na qual existimos, insistimos como sempre. Que seja uma busca abençoada, que sejamos capazes de descobrir o melhor caminho a trilhar.

Existe apenas um único caminho, este é o caminho no qual nós avançamos com todo nosso ser. (Um sábio)

© Professor Guilherme Assis de Almeida, é advogado, doutorando em Filosofia do Direito pela USP e Professor Universitário.