Fantasmagoria

“O que eu posso fazer?” esta questão sempre aparece quando reúno os amigos em casa para um bate-papo informal sobre as questões políticas de nosso país e nossa cidade.

Numa noite destas em que estávamos comemorando nossa juventude, com muitas goladas de cerveja e de vinho, o assunto em pauta era uma televisão destas mais modernas que eu pretendia comprar. Era uma TV cara, quase três mil, mas, que iria me satisfazer durante os momentos em que eu estivesse na frente dela, quer seja por um bom filme, ou mesmo um bom game.

Embora fôssemos muito amigos, tínhamos diferenças, até para atestar uma boa relação. Afinal ninguém gosta de se relacionar com indivíduos que concordam com tudo que os ouvidos ouvem, ou por respeito, ou por incapacidade. Por minha parte eu acabara de encontrar um bom emprego, como professor, era bem casado, estava mobiliando uma modesta casa. Enfim, gozando como nunca o que o capitalismo me oferecia. O segundo era um pensionista bem humorado que adorava se divertir “tomando uma” e jogando conversa fora. O terceiro era um jovem comerciante, o único de nós que possuía veículo, uma moto para precisar. E o quarto era um socialista convicto, desempregado por opção.

- Você já ouviu o termo fantasmagoria? – disse a mim o quarto, com a força de um decreto.

- fantasga... fantasjamo... O que? – disse, engasgado com o início da embriaguez.

- Fantasmagoria foi um termo criado por Baudelaire, e, reinterpretado por Marx para definir o mascaramento das intenções do capitalismo. Você consome o produto por consumir, desconhecendo a exploração de inúmeros trabalhadores para você poder se iluminar com produtos materiais.

- Bom, mas eu também sou explorado ao máximo no meu trabalho, pelo ao menos no âmbito mental, e por isto acho que, devido ao meu esforço mereço alguns espólios, como uma TV de cinqüenta polegadas.

- Mas é um absurdo você se satisfazer com uma TV, é ter um espírito muito fraco. Tanta gente não tem o que comer, o que vestir, sofrem preconceitos, nem dignidade lhes é permitida! – insistiu furiosamente o terceiro.

- O que eu posso fazer? Só vou consumir um produto quando a miséria do mundo estiver acabada? – defendi-me com questionamentos vagos.

- Ontem mesmo, passando por um cruzamento vi pessoas lavando vidros de carros para ganhar o que o motorista achasse uma boa esmola. Vendo isto eu reflito sobre o fato de muita gente que está dirigindo estes carros explora vertiginosamente coitados como estes dos cruzamentos, com o diferencial que assinam algumas carteiras. – o quarto afirmou, com solenidade.

- Mas devemos ter consciência de que para estas pessoas dos sinais e favelas não podemos fazer muita coisa para mudar, pois, não temos poderes suficientes para tal. – intercedeu o terceiro.

- O problema é oficialmente este. Quando achamos que não podemos fazer nada, nada acontece. Inseriu o quarto.

- O que eu posso fazer? – o terceiro questionou.

- Eu só sei de uma coisa, eu também acho besteira esta história de TV de tantas polegadas, mas se o dinheiro é seu vá em frente, faça o que quiser. Da minha parte, vou gastar dois mil numa tatuagem de uma caveira nas costas. O dinheiro é do meu pai, passado pra mim, e eu não tenho obrigação de sustentar vagabundo. – afirmou o segundo, furiosamente.

Após alguns segundos de raciocínio, vimos que a cerveja tinha acabado e eu me ofereci para ir com o terceiro comprar mais. Ao chegar no supermercado, gastamos trinta reais em cerveja de boa qualidade, que paguei com cartão de débito e ainda na fila ele me disse:

- o que acontece é que sou mais de esquerda que você, e mais direita que Saulo.

Ao chegar, continuamos bebendo todas, já entorpecidos e cantarolando sambinhas de Vinícius. Adormecemos ali mesmo.

Maurício Alves Bezerra Junior
Idade: 24 anos
Professor de filosofia. Cursando pós-graduação em Metodologia do ensino e da pesquisa hiatórica.


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