A Influência do Pensamento Mítico no Homem Moderno

* Leonardo Antônio Passos

RESUMO

O presente estudo demonstra como a relevância do mito se constitui em um arcabouço sócio-cultural inerente ao homem moderno, expondo determinados aspectos como suas funções e características que por muito promovem uma austera representação daqueles, tanto num maior detalhamento como num maior entendimento de sua presença. Destarte, objetiva-se, ainda que indiretamente, correlacionar as peculiaridades da razão com o pensamento mítico de forma a realçar a estrutura de ambos, produzindo um poderoso sedimento transcendental no processo de transformação da vida humana.

Palavras-Chave: Era Contemporânea, Homem, Mito.

INTRODUÇÃO

A origem do mito remonta a Antiguidade, situando-se entre os povos primitivos de forma a proporcionar uma determinada posição no mundo, isto é, de encontrar o seu lugar no meio dos demais seres da natureza. À primeira vista, trata-se de um modo ingênuo, fantasioso, anterior a toda reflexão e não-crítico de estabelecer algumas verdades que não só explicam parte dos fenômenos naturais ou mesmo a de uma construção cultural, mas que modelam, também, a ação humana resultante de uma manifestação volitiva antecessora.

Como etapa embrionária do desejo de se consolidar um paradigma mais eficiente, afugentando o medo e a insegurança a seu redor, o homem concebe o mito. Aquele, à mercê das forças naturais que lhe são, num primeiro momento, assustadoras, inicia um processo de emprestar a este suas qualidades emocionais. Desse modo, as coisas que o cercam adquirem nova conotação, sempre impregnada de qualidades (sejam boas ou más) familiares ou sobrenaturais, atraentes ou ameaçadoras. É a partir dessa concepção que o homem engendra o movimento dentro de um mundo animado por forças pelas quais ele precisa conhecer, ainda que de maneira rústica.

1. Funções e Características

De acordo com Martins (1992:62), o pensamento mítico está, então, muito ligado à magia, ao desejo, ao querer que as coisas aconteçam de um determinado modo. A partir disso se desenvolvem os rituais como meios de proporcionar os acontecimentos desejados. Ainda em conformidade com a referida autora, o ritual é o mito tornado ação.

Pode-se dizer que a principal função do mito é promover tranqüilidade ao homem, bem como acomodá-lo em face do ambiente que o circunda. Através da função em comento o homem, posteriormente, irá gerar suas volições, ou seja, estará apto a produzir atos propriamente ditos e fixará modelos exemplares de funções das atividades humanas.

O homem é um ser que busca constantemente a reafirmação de suas necessidades. E uma destas é a existência de se conhecer como parte de um grupo, o qual garante a sobrevivência a seus integrantes e por ele há o despertar consciente de equacionar aquele imperativo básico (pertencer a grupo, com segurança).

Outra característica do mito é o fato de ser sempre dogmático, qual seja, de apresentar-se como verdade que não precisa ser provada e que não admite contestação. A sua aceitação tem se dá mediante a fé e a crença. Contudo, não é uma aceitação racional, não sedo possível prová-la, em questioná-la, cientificamente se referindo.

2. O Mito Contemporâneo

Hoje em dia, será que os mitos são diferentes? Será que o pensamento crítico que alicerça o conhecimento atual não possui uma participação na forma do homem contemporâneo se situar ao todo?

No sentido descrito, corroborando a indagação acima explicitada, Augusto Comte, filósofo francês que viveu no século XIX, fundador do Positivismo, propõe que o homem moderno conserve a essência do modo mítico de comportamento, haja vista as mudanças de ordem tecnológicas, políticas, econômicas e sociais supervenientes ao longo dos anos.

Ao opor o poder da razão à visão pueril ofertada pelo mito, o Positivismo, de certa forma, empobrece a realidade humana. O homem tanto o contemporâneo como o antigo, não é somente razão, mas também afetividade e emoção.

Negar o mito é dizer não a uma das formas fundamentais da existência humana. Consoante o entendimento da maioria dos filósofos antigos e até mesmo uma grande corrente moderna, o mito é a primeira forma de se dar significado ao mundo, fundada na vontade de o homem se sentir seguro, de investigar novos caminhos imaginários. O que há de se inferir quando uma criança encarna a idéia do super-herói por meio dos meios de comunicação (filmes, revistas em quadrinhos etc.)? Sem dúvida, é a premissa da percepção do mito revelando-se, ainda que de forma nascitura, consubstanciando uma perspectiva de proteção e motivação imaginária.

Muitos são os adotantes do mito, atualmente, como refúgio em relação à grande instabilidade observada em situações tidas como comum, notadamente o desemprego e a violência, onde estes vêm revelar um formato de vida cada vez mais difícil ao homem.

Assim, percebe-se de forma tácita que mito e razão se completam na vida humana. Entretanto, o mito contemporâneo, além disso, desperta subjetivamente força para motivar paixões, como no caso da política e das causas religiosas, não se caracterizando mais com aquela estrutura primitiva.

Os mitos atuais não mais abrangem a totalidade do real. Escolhe-se um mito da sexualidade, outro da maternidade, do profissionalismo, sem que tenham de respeitar coerência entre si. Assim como houve uma especialização do trabalho, houve também uma especialização dos mitos.

CONCLUSÃO

De qualquer forma, não só o mito, mas também a razão habitam o mesmo mundo, gerando o pensamento reflexivo que pode rejeitar alguns mitos, principalmente os que veiculam valores destrutivos ou que conduzem a desumanização da sociedade. De fato, conservar a essência do mito, seja na era atual, seja nas vindouras é uma tarefa de manutenção do ser humano como pessoa.

O verdadeiro substrato do mito não é o pensamento, mas sim o sentimento. Portanto, não há que se falar de razão com a ausência da influência mítica no cerne humano, ainda que em muitas vezes ela apresente-se ocultamente, sem o indivíduo perceber sua própria potencialidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASSIRER, Ernest. Antropologia Filosófica. São Paulo: Mestre Jou: 1987.

ECO, Umberto. Apocalípticas e Integradas. São Paulo: Perspectiva, 1970.

MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de Filosofia. São Paulo: Moderna, 1992.

SEVERINO, Antônio Joaquim. A Filosofia no Brasil. São Paulo: Anpof, 1990.

* Sobre o autor: Nome: Leonardo Antônio Passos. Titulação: Graduado em Administração de Empresas pela LUMEN Faculdades.

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